Ele é reconhecido entre os companheiros de clero como “o atleta”. Não se assuste se ver o padre Genico Schneider correndo aí pelas ruas de Montenegro ou da Vendinha, quem sabe até pelo interior de Estrela. Esta é uma marca dele: cuidar da saúde física e espiritual. Tudo começou nos tempos de seminário, quando era na educação física que se destacava, mas o hábito que começou despretensiosamente hoje garante não só sua saúde física, mas também mental. Recém chegado aqui em nossa comunidade, já passou por 12 paróquias desde a sua ordenação, e ainda por mais uma antes de ser ordenado. Agora, chega à Catedral, mas ainda atendendo as paróquias da Timbaúva e da Vendinha. Natural de Estrela, este padre nascido em 24 de maio de 1959 tem fôlego de guri.
Conheça um pouco de sua história na entrevista que concedeu à Pascom.
Pe. Genico (à direita) na sua apresentação na Catedral junto do pe. Renato
Pascom – Quando o senhor entrou no seminário?
Pe. Genico – Em 1973, no seminário menor. Estava na sexta série.
Pascom – Em qual seminário? O que levou a essa decisão?
Pe. Genico – Em Bom Princípio, que naquele tempo pertencia a Arquidiocese de Porto Alegre. [Hoje, o Seminário Menor São João Maria Vianney é uma das casas de formação da Diocese de Montenegro, mas, antes da criação da Diocese pertencia à Porto Alegre]. Naquele tempo era diferente, só na minha turma eram 60 ou 62 jovens. Tanto em Estrela como em Roca Sales, e até em Bom Princípio, era normal muitos jovens irem para o Seminário. Os promotores vocacionais iam visitado as escolas e convidavam. Como eu já tinha muitos amigos meus que estavam lá, então, você começa a pensar em entrar. O promotor vocacional passava nas escolas e, de repente, alguém se animava e ia. Daí, outros, como eu, iam também, porque com 13 anos você não tem mínima noção do que de fato implica isso tudo. Mas é como o início do namoro, digamos.
Pascom – Mas, então, a sua primeira motivação foi para ir juntos com algum amigo?
Pe. Genico – Eu tinha mais que um. Onde eu residia, no interior de Estrela, era mais ou menos 25 famílias e entre elas tinha 11 seminaristas. E eu fui o último a ir, único que também fez a caminhada até o final.
Pascom – O senhor disse que quando se entra no Seminário Menor não se sabe tudo que implica esta decisão, mas foi lá que o senhor entendeu e descobriu sua vocação?
Pe. Genico – Não, foi posterior. Bem posterior. Você faz toda uma caminhada. É como hoje se fala, primeiro é o tempo do namoro. Começávamos lá no Seminário Menor e fazíamos a sexta, sétima e, depois, oitava série. Depois, íamos para o Ensino Médio em Gravataí. E aí, depois, você vai para a Filosofia, começa o discipulado. Daí, na Filosofia, começa uma configuração e começa a Teologia. Aí sim que você tem que decidir. E eu, além de tudo isso, fiz dois estágios, fiz duas paradas no meio.
Pascom – O senhor fez algo pastoral? Foi para alguma paróquia nestas paradas?
Pe. Genico – Não era oficial. Foi uma decisão minha de morar numa paróquia. Fui para Estrela, Paróquia Santo Antônio. Eu era de Estrela, mas não conhecia esta paróquia porque os meus pais residiam em um local chamado Linha São Luiz, que é bem próximo de Bom Retiro do Sul. Então, para nós era bem mais fácil ir na Paróquia de Bom Retiro. Então, fiquei lá na Paróquia de Estrela um ano, em 1985.
Pascom – E qual foi a outra paróquia em que o senhor ficam na segunda parada?
Pe. Genico – Estive um ano em Triunfo, em 1988, como diácono. Aí foi o ano que fui ordenado.
Pascom – Mas quando foi o momento em que o senhor decidiu ser sacerdote?
Pe. Genico – Na verdade, a decisão veio depois de 1985, quando estive na paróquia de Estrela. Lá, interagi muito mais um com a questão pastoral e com o padre da paróquia. Eu vinha do interior, muito retraído, sentia dificuldades e tudo mais. Mas este padre dizia assim: “não, cara, vai firme, tu vai te dar bem no Ministério. Não te preocupa tanto. Não tem que se inspirar, se espelhar em outro. Seja você, seja autêntico, do teu jeito”.
Pe. Genico no início de seu ministério
Pascom – Quem era esse padre?
Pe. Genico - Paroco da Paróquia de Estrela, 1985: Cônego Hugo Volkmer. Ela já é falecido.
Pascom – Então, foi ele que lhe deu essa inspiração para continuar?
Pe. Genico – Sim, porque é normal, pelo menos para mim, procurar sempre se espelhar naqueles que mais se destacaram. Mas, como ele falava, “você é o único, você não tem que querer ser como eu”. Me falava assim porque ele era um padre que na homilia falava pouco, mas era sempre uma síntese inteligente. Então, eu pensava: “eu tenho que ser como este padre, mas eu não posso, não consigo”. E ele me dizia: “cara, não é assim. Tu te relaciona bem, não te preocupa, isso [a oratória e capacidade de síntese na homilia] não é o essencial, faz parte, mas não é só isso”.
Pascom – E na sua casa, como era a vida? Tinha mais irmãos? E seus pais?
Pe. Genico – O pai faleceu há quatro anos, no tempo da Pandemia, faleceu de Covid. A minha mãe faleceu faz dois anos, mas foi uma morte muito mais tranquila do que a do pai. Eu tenho uma irmã e um irmão mais velhos. Em 1959 eu nasci e, depois, quando eu tinha 11 meses, nasceu outra irmã minha. Ela morreu em 1972, num acidente. Talvez, essa foi a maior cicatriz da minha vida.
Pascom – É de imaginar, vocês cresceram juntos, muito próximos.
Pe. Genico – Sim, e logo depois que ela morreu eu já fui para o seminário. Eu não deveria ter ido naquele período, foi muito difícil. Estava na sexta série, perdia muitas aulas. Não tinha a consciência que tenho hoje sobre o que é o luto e como viver isso. Minha mãe foi lá no seminário e queria me levar de volta para casa, mas ela não teve coragem de falar. E eu também não tive coragem de pedir para ir com ela. Depois que falamos sobre isso. Na época, eu fiquei, repeti a sexta série por uma opção. O reitor do seminário era vizinho nosso de Estrela e sabia de toda a história. Ele mesmo me disse que foi um ano dificil e sugeriu que eu repetisse de ano na escola. E foi a melhor decisão que nós tomamos em conjunto.
Mas, voltando a família, ainda nasceram, depois desta minha irmã que faleceu, mais uma irmã, depois, dois irmãos e mais duas irmãs. Somos nove.
Pascom – Do que sua família vivia?
Pe. Genico – Tínhamos alambique em casa. Na verdade, onde eu me criei, localidade chamada Linha Delfina, tinha uma cooperativa. A maioria dos colonos se dedicava a fabricar cachaça. Era o meu pai e meu tio juntos na propriedade, duas famílias que viviam juntas e eu nunca vi um conflito entre meu pai e meio tio. É impressionante. Eles eram extremamente leais. Produzíamos mesmo cana-de-açúcar, mas também tinham o básico, porque naquele tempo não se comprava nada. Tínhamos milho, mandioca, arroz, feijão, trigo, tudo isso era plantado. Depois, tinha alguma criação, tinha vaca leiteira, porco, galinha.
Pascom – Então o senhor tinha uma vida bem de interior, na lida. Foi dificil para o senhor se adaptar ao modo de vida no Seminário?
Pe. Genico – A maioria dos colegas, quase todos, eram do interior. Como tinham as atividades de produção, a equipe da horta, da ordenha, etc., era até mais fácil para quem vinha do interior viver no Seminário. Para ter uma ideia, a nossa linguagem era o dialeto do alemão ou do italiano, que era o que se falava nas colônias. Nossas conversas, o assunto entre nós, era sempre assim nestes dialetos. E eu sempre fui de plantar, até hoje eu faço isso num sítio da minha irmã. Eu gosto de plantar, não tem como deixar. Um dia por semana faço isso.
Genico ainda lembra desta família e imagina como estão as gêmeas hoje
Pascom – É lá em Estrela esse sítio?
Pe. Genico – Sim. E no Seminário, em Bom Princípio, eu sempre fui da primeira equipe do dia, pois lá tinha tambo de leite e tinha que sair para cortar pasto. Depois, em Gravataí, passei para equipe que plantava hortaliças. Por isso, quem era dos interiores se virava bem melhor. E, depois, tinha o futebol.
Pascom – Pois, é. E o futebol? Fala-se que o senhor é um atleta?
Pe. Genico – Eu sempre fui metido. Se no estudo era dificuldade, no esporte me dava bem. Eu ficava, ficava e ficava. Até era super, super, exagerado. Tinha uma época que eu corria 40 km.
Pascom – Pois o padre Renato disse que não o encontrássemos na Casa Paroquial é porque o senhor estaria correndo por aí.
Pe. Genico – (Risos). Não, fui ontem. Hoje, fiz exercícios básicos. Eu tenho aparelho que eu levo para lá e para cá. Mas, eu vou correr num campo por causa de um problema nos joelhos que consegui no futebol. Por isso, prefiro correr num gramado. Ontem, eu saí daqui, fui até o cemitério caminhando e correndo e fiz só 20 voltas no campo, estava muito calor. Fiz isso no Campo do Municipal [no bairro Municipal]. Lá tem um senhor que eu conheço desde a outra vez em que estive em Montenegro, quando estive lá na Timbaúva.
Pascom – Mas o que são esses outros exercícios que o senhor faz? Musculação?
Pe. Genico – Não existia academia no meu tempo. Então, criei hábitos próprios. Eu coloco uma barra, que eu mesmo faço, e me exercito.
Pascom – De onde veio esse seu gosto por atividades físicas?
Pe. Genico – O futebol foi puxando. Era muito dificil ser titular no Seminário, eram cento e poucos e eu queria pegar o time principal. Nas férias, eu pegava os campeonatos do interior. Sempre estava muito preparado, tinha uma resistência boa.
Pascom – E hoje o senhor ainda joga? O padre Diego joga.
Pe. Genico – Não, não jogo. É por causa da pressão do joelho. E, depois, tenho 65 anos. Eu quero dizer uma coisa para vocês: às vezes, penso que eu queria morrer numa corrida, morrer correndo. E, depois, sério mesmo, o esporte ajuda na cabeça também. Além disso, uma vez, quando ainda estava em Roca Sales, sofri um acidente de carro e graças a minha saúde física não me machuquei mais sério.
A benção e alegria da inauguração da nova casa paroquial em Tapes
Pascom – Pois é, o senhor esteve em Roca Sales. Viu todas aquelas grandes enchentes. Foi a experiência mais dura que o senhor passou como padre?
Pe. Genico – A primeira enchente eu não vivenciei. Tinha passado por uma cirurgia, estava me recuperando. Apareceu um tumor e, de novo, tive uma boa recuperação graças a boa condição física. Mas, sim, foi muito duro. O que eu vou te falar? É como quando tu vai ver alguém que perdeu um parente, você não tem palavras. Vão dizer, “ah, mas o padre”. Só que não, a verdade é que tu não tem palavras. Você abraça, você chora junto, você escuta. E, no caso de Roca, foi difícil porque a Igreja ficou no meio de tudo. Era posto de saúde, era tudo porque não tinha mais nada. Até hoje, três salas de catequese são usadas como um colégio estadual. Roca hoje é um município destruído. Não tem fábricas, têm comércio fraco e o interior também fraco. Então, conviver nesse contexto é difícil, né?
Pascom – Mas, ao mesmo tempo e em meio a tanta dor, a Igreja, o prédio mesmo, virou espaço de acolhida. Não é?
Pe. Genico – Foi graças ao padre, o pároco, que hoje está lá [padre João Paulo Schäfer, que segue à frente da Paróquia São José de Roca Sales]. Ele é meio sério, muito trabalhador. O prefeito estava com problema sério de saúde e não tinha como acompanhar direto, vereador nenhum tinha condições. Então, uma equipe, junto com o pe. João Paulo, que pegou junto, tomou a frente. Veio até o Rotary Club Porto Alegre. As pessoas fizeram o que poder público lá não fez. Sem dúvida, aquela é a situação mais complexa que já vi. O Papa fala que a Igreja deve ser um hospital de campanha e nós tínhamos isso lá, verdadeiramente.
Pascom – Isso também fala muito da ação dos leigos dentro da Igreja. Soube que o senhor defende muito isso também.
Pe. Genico – Aliás, não tem como não defender isso. Todos somos batizados. Tenho uma experiência na Diocese de Chapecó, em Santa Catarina. Lá, há uma grande participação de leigos. Eles têm os ministros da palavra e tanto faz se um padre ou ministro leigo preside uma celebração, o povo que está lá. A celebração é preparada da mesma forma, tem ministério da música, etc., etc. E lá, quem faz o batizado não é um padre, são ministros específicos para o Batismo. Claro que tem coisas que só cabem ao padre, como a consagração na missa e a confissão. Mas há muitos papeis que os leigos podem assumir. Inclusive visita a doentes, participação em velórios e apoio às famílias. Claro, as pessoas têm que ser preparadas, mas isso é possível. E eu falo isso de Chapecó porque é uma realidade que conheço.
Pascom – Pois é, isso que o senhor coloca, esta experiência de Igreja lá em Santa Catarina, é algo muito presente na Igreja na Amazônia também.
Pe. Genico – Sim, é a chamada Igreja Ministerial. Precisamos pensar nisso, é o futuro. Hoje, em muitos lugares, quando se tem um padre, ele atende três paróquias. Ele não tem como dar conta. Precisa dos leigos caminhando junto. Você precisa promover ministério leigos, se não a Igreja morre. A comunidade é a de base da Igreja.
Tímido, o jovem Genico com traços bem típicos de quem cresceu no interior
Pascom – O senhor veio para a Catedral, mas não vai atuar sempre aqui. Vai também atuar na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Timbaúva, e na Paróquia Santo Antônio, da Vendinha. Nos explique como isso funciona?
Pe. Genico – Quando dom Carlos propôs minha vinda para a Catedral, ele já falou que eu seria um vigário auxiliar, que ele chama mais como um missionário. Na realidade, todos somos missionários, mas essa função tem o sentido de não estar só num lugar. Eu já tive uma experiência assim, mas, agora fica até mais fácil porque são todas paróquias próximas. Funciona assim: fico até sexta-feira na Catedral. Sábado vou para Timbaúva, tenho três missas lá. E sábado à noite já vou para Vendinha.
Pascom – O senhor gostaria de deixar uma mensagem para nossa comunidade?
Pe. Genico – Eu acho interessante este ano que estamos vivendo. Este ano jubilar é um privilégio, mas também um compromisso. Nós temos de ser peregrinos da esperança, seja qual for a pastoral que atuamos. Quem dinamiza, quem anima, quem coordena, que sejam padre ou leigo, todos tem esse compromisso. Nós temos que acompanhar, juntos, como uma Igreja de comunhão e participação.
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